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29/11/2006
a vida de clarice
a vida de clarice é uma série infinita de histórias delicadas, praticamente contos de fadas anti-fadas anti-clímax.
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01. o farmacêutico
início do século vinte e um. metrópole de um país subdesenvolvido da américa latina. uma porta está trancada. atrás desta porta há uma menina, de nome clarice, debatendo-se contra suas personalidades múltiplas e lamentando não ter maisdinheiro pros remédios. clarice está apaixonada pelo farmacêutico. ele conhece o funcionamento do cérebro e ensinou clarice que sentimentos não passam de reações químicas. triste, clarice? antidepressivos. ansiosa, clarice? ansiolíticos. você é apenas uma massa de carne e eletricidade sem sentido facilmente manipulável por minhas bolinhas coloridas. - mas, mas... seu farmacêutico! como as pessoas faziam antigamente? quando ainda não existiam as drogas? - elas sofriam e choravam e se arrastavam e queriam se matar. - e eu não estou passando exatamente por isso, seu idiota? - calma, clarice!
(clarice ficou puta e quebrou vários vidrinhos de remédio na farmácia. estapeou o farmacêutico e correu antes de chegar a polícia.)
o detergente
diariamente clarice lava a louça para a sua mãe, que é cozinheira, planejando seu suicídio. seus dedos cheios de feijões amassados vão apertar o gatilho do revólver dentro de sua boca. clarice acorda cedo e realiza atividades nojentas como tirar o lixo cheio de restos de comida em decomposição e lavar pratos usados por homens gordos, sujos e suados. concentrada em frente à pilha de louça, clarice gosta de imaginar sua cabeça estourando, ela se diverte com o tiro que vai abrir um buraco em sua testa e pensa que dele vão escorrer espuma de detergente e bolinhas multicolores de sabão.
(a história continua até o infinito mas, por aqui, CHEGA!)
Escrito por ana pands às 22h00
28/11/2006
não tenho mais o menor saco pra ler jornal. que se dane o mundo, só vejo como é que tá meu signo e os quadrinhos. NÃO ANDO SENTINDO NECESSIDADE DE ARCAR COM AS DORES DA HUMANIDADE. MINHA CONSCIÊNCIA SABE SE INFERNIZAR DE MIL OUTRAS MANEIRAS. o taxista, malufista, cabelo engomado e cara de cu, pergunta bocejando no sotaque paulistano médio: “e aquela chuva onteim, hein? acredita que fiquei uma hora e meia parado na marginal co carro desligado? tá duro, viu, mocinhá”. mocinha é grandessíssima vaca da tua irmã, meu senhor, e tô cagando pra porra da chuva e a buceta da marginal e o biscate do maluf que você elegeu. OLHA AQUI, GENTE BOA, VIVA O ESTADO BURGUÊS CORRUPTO DO BRASIL, FALÔ? E AS NINFETINHAS TESUDAS DA PÁTRIA-MOTHER! E VÁ SE FUDER.
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andando à noite na augusta de all star e camisa do sonic youth sinto uma angústia que não é minha e saudade de alguma coisa que não vivi. andando à noite em copacabana de sandália e saia naquele calor, com aquelas pessoas na rua conversando e a brisa e a lua e o cheiro da praia me sinto só uma brasileirinha subdesenvolvida e nada parece melhor que isso. que saco cheio desse ar blasé e fechado e medroso de são paulo, quero ir pra bahia. ou pernambuco ou maranhão ou acre ou paraíba, sei lá, qualquer lugar lá pra cima, onde eu possa fritar no sol.
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dá licença, viu. que eu sou a única mulher aqui e meu blógue é rosa. isso me autoriza a uma histeria de vez em quando. mas não esquenta, amanhã vou ficar de tpm e vai ser bem pior. posso fazer uma cobertura minuto-a-minuto.
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NOTA: os trechos em maiúsculas são frases do TANTO FAZ de REINALDO MORAES, que acabei de ler e que me fez ter ainda mais vontade de me picar daqui e me dedicar exclusivamente ao ócio etílico onanista chapado e cinematográfico, se possível, em paris.
Escrito por ana pands às 10h12
27/11/2006
lendo dicionário
(…) querer provar que o preto é branco e o quadrado, redondo; sustentar com igual furor o pró e o contra, soprar quente e frio, torcer o sentido, dar ao erro uma ficção de verdade; ser mais propício à mentira que à verdade; obscurecer a verdade; deitar para o mal; ser ilógico; intuitivo, instintivo, natural, gratuito, desconexo, disparatado, sonâmbulo (…)
(do dicionário analógico da língua portuguesa)
Escrito por ana pands às 15h26
25/11/2006
loucura II
era uma menina que mudava tanto de ser e de emoções que começou a escrever cartas para as outras que eram ela mesma. pois uma noite sofria de chorar e acelerar o coração pensando na morte e na outra manhã já estava lá, que coisa obscena, comendo pão com margarina como se nada tivesse acontecido. precisava sentir um mínimo de dignidade por si mesma e por seu sofrimento, então resolveu escrever, mas não entendia os próprios escritos. aquela que trabalhava como burocrata num escritório das 9h às 18h não entendia o bilhete torto que a bêbada rabiscara num guardanapo de bar durante a madrugada; a depravada bissexual sadomasoquista voyeur que tinha sonhos eróticos com o entregador de gás não via sentido no juramento de fidelidade da namorada comportada; a acadêmica estudiosa achava pura bobagem o instante intenso de suspiro poético da romântica, e assim por diante, num alternar de gentes tão grande que era quase esquizofrenia. QUASE. ela só precisava aprender que quando esse quase existe, é sinal de que está tudo bem. porque ser sempre do mesmo jeito geralmente é ser chato, e ser muitos ao mesmo tempo geralmente é ser louco. moral da história: sutil é o limite entre o tédio e o choque elétrico em franco da rocha.
de cactustree. obs: acabei de voltar do rio de janeiro, continua lindo, que cidade inspiradora, dava pra escrever um romance. já volto. um beijo.
Escrito por ana pands às 20h57
13/11/2006
o livro da etiqueta formidável
capítulo um: encontrando alguém chamado Bernardo
É extremamente rude cumprimentar uma pessoa de nome Bernardo com um mero aperto de mão, ou qualquer outra dessas grosseiras saudações pré-estabelecidas. Um Bernardo exige uma saudação original, que deve variar de acordo com suas feições. Portanto, verifique o formato do rosto do seu Bernardo e invente uma forma exclusiva de cumprimentá-lo. O mesmo vale para Bernardas e Bernadetes.
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capítulo dois: incêndio em supermercados
Ao presenciar um incêndio durante as compras do mês, aja com cautela. Não fique parado, mas não ande, nem engatinhe: é melhor rastejar pelo chão. Tente molhar suas roupas e, uma vez que tenha conseguido escapar, não retorne.
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capítulo três: portando-se bem diante de xerifes
Nunca se sabe quando um xerife resolverá aplicar-lhe uma revista, portanto, convém estar preparado. Ande sempre com dezenas de caixinhas espalhadas pelos bolsos e cuide para que cada caixinha traga dentro de si uma outra de tamanho menor, e outra, e mais outra. Como bonecas russas. Tenha um presente na última caixinha e ofereça-o ao xerife em questão.
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capítulo quatro: recebendo o vendedor de palavrões
Uma vez na vida, mais cedo ou mais tarde, todo mundo encontra o vendedor de palavrões. Quando a sua hora chegar, saiba aproveitar a oportunidade. Consulte o catálogo completo e compre o palavrão mais adequado à sua personalidade. Seja cortês e agradeça ao vendedor, xingando-o efusivamente.
Escrito por ana pands às 11h01
10/11/2006
sinal dos tempos
o rock morreu. sexo tem que ser de camisinha. as drogas estão cada vez piores. se você pixa muro, vem um publicitário e acha super cool e quer usar seu tag no próximo anúncio da red bull. acabou tudo. deve ser por isso que os moleques botam franja e ficam chorando.
Escrito por ana pands às 17h33
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