o trabalho mais divertido que já fiz (fora os tempos de ouro da prostituição em las vegas, fora ser assistenta do caco e do ronas e fora o atual em que todos estão sempre pulando felizes) foi selecionar redações de crianças de todo o brasil para um concurso.
era meio insano, tive que ler 3.000 redações em dois dias, pra separar as 20 melhores. a coisa valia um prêmio bem caro e era patrocinada por uma marca famosa, então precisava seguir as regras do tal concurso pra decidir qual redação era boa e qual não era. obviamente, as melhores redações (segundo meus critérios particulares) eram as que NÃO se encaixavam nas regras, e eram tão sensacionais que tirei umas xerox pra guardar pra mim. as crianças (de 7 a 11 anos) tinham que escrever sobre o tema: “o brasil: o que eu gosto e o que não gosto no meu país”. das 3.000, umas 500 não seguiam o tema; várias tinham um recado atrás, em letras pequenininhas, dizendo “meu jesuisinho amado me ajuda a ganhar esse concurso, vai, por favor” e a maioria tinha desenhos, colagens e adesivinhos. as que seguiam as regras do concurso eram as mais chatas, com exceção de uma que dizia “um problema que tem no brasil são essas empresas tipo a (nome da empresa que patrocinava o concurso), que ficam aí SE FAZENDO DE SANTO mas nos trazem muitos e grandiosos males.” incrível!
mas a melhor de todas, a grande sensação, toda trabalhada em lápis de cor e canetinha, veio de um menininho do mato grosso e dizia o seguinte:
TÍTULO: A HISTÓRIA DO HOLANDÊS DE BIGODE VERMELHO QUE CASOU COM A VIZINHA
TEXTO: era um holandês e ele tinha uma vizinha. um dia, ele casou com ela. ah, esqueci de dizer: ele tinha um bigode vermelho. FIM
o jogo é composto por duas cartas de 10 x 7 cm. as cartas possuem uma face idêntica e na outra face temos uma carta branca com a palavra winner e uma carta preta com a palavra loser, como no desenho:
as cartas devem ser embaralhadas e distribuídas com as palavras voltadas para baixo. os jogadores devem levantar as cartas ao mesmo tempo. quem fica com a carta loser perde e quem fica com a carta winner ganha. os jogadores sabem no exato momento em que recebem as cartas se ganharam ou se perderam, abreviando ao máximo a angústia da disputa. os jogadores não precisam se pronunciar nem comentar o resultado.
jogo criado por marcius, o galan (o link para o site dele está na faixa rosa aí do lado)
* * * sorte no jogo azar no amor de que me serve sorte no amor se o amor é um jogo e o jogo não é o meu forte, meu amor?
já contei aqui as histórias do ascensorista-que-tinha-pressa (aquele que ficava o dia inteiro subindo e descendo no elevador, mas sempre muito ansioso porque precisava chegar LOGO), do professor-de-literatura-disléxico (que falava sobre o primo do padre amaro, o crime basílio, como capitu traiu otelo, etc.) e das crianças-astronautas (essa não dá pra resumir). agora descobri o vendedor-que-não-quer-vender. tem um sebo perto do meu trabalho que fica escondido, e o dono tem um certo amor pelos livros, então se você chega lá e se interessa por algo, ele fala que é ruim, que é mal escrito e que o autor é péssimo; ele te trata mal e te manda embora! ele é demais! um viva! e um brinde aos russos.
on 7-7-77 eleven years later still don't know any better by 8-8-88 it's way too late for me to change and by 9-9-99 i hope i'm sittin' on the back porch drinkin'red wine singin' oooohhhhhh french fries with pepper! ohhhhh french fries with pepper!
alguém viu que uma menina morreu depois de tomar sete cafés duplos?!? ou seriam 14 cafés? alguém já ficou em dúvida, pela manhã, tomando café (só um), se estava realmente despertando ou se a partir dali estava adormecendo?
ah,
"a tarefa de amolecer diariamente o tijolo, a tarefa de abrir caminho na massa pegajosa que se proclama mundo, esbarrar cada manhã com o paralelepípedo de nome repugnante, com a satisfação canina que tudo esteja em seu lugar, a mesma mulher ao lado, os mesmos sapatos e o mesmo sabor da mesma pasta de dentes..." ...cortázzzzzzzzar...
agora, e o curíntia hein?! que beleza! não vai chegar em lugar nenhum, mas pelo menos tá tirando uma onda. (bom, isso é o que falo pra mim mesma, todos os dias, sobre minha própria vida.) vai curíntia!
electric super sex automatic cigarette hotel rock and roll i got the whiskey you are a super ultra maxi mega funkie sex love baby i got it all year long yeah whoah
ah! as mães das minhas amiguinhas da quinta série! que coisa nojenta. já naquela época descobri que mãe é tudo vaca, uma pior que a outra, e que só restava a nós, as meninas da quinta série, apostar na redentora arte da dissimulação. algumas foram tão fundo no disfarce que hoje são irrecuperáveis. principalmente a carmen, que se matou. a clarice, que fugiu. a catarina, que tá internada. a cecília, que é uma putinha. isso pra ficar só na letra c. as grandes tragédias das meninas com c. que sentiam náusea com o cheiro do laquê, o gosto do bolo doce engordurado feito com amor, a voz do silvio santos, a igreja aos domingos e todas as demais preocupações das mães da classe média. misture tudo e o resultado é uma tremenda ânsia de vômito, além de uma série infinita de contos de fada anti-fadas anti-clímax. assim sendo, fique agora com a história da cecília, a putinha, num drama com participações especiais de adão, eva, abraão, esaú, jacó, jesus cristo, allan kardec, siddartha gautama, sherlock holmes, dostoievski, deus e o pessoal todo. um oferecimento: bingo sumaré. beijos e até breve! . . . . . CECÍLIA
fez sinal pro ônibus e subiu apressada, jogou as moedas pro cobrador, passou a roleta e foi andando rápido, sem nem se segurar nos canos, até o último banco. as pernas tremiam nervosas, as mãos se esfregavam uma na outra, suadas. deitou a cabeça pra trás e pela janela empoeirada ficou olhando as nuvens passando em alta velocidade, as nuvens, o céu, é tudo tão grande, sou tão pequena... e de repente, de dentro, fazendo um caminho todo dolorido de arrependimento e culpa, veio a lágrima inesperada que ao rolar pelo rosto a fez perceber que... estava rezando? seus lábios sussurravam um pai-nosso desajeitado, ela aumentou o tom da própria voz para ter certeza que, sim!, estava rezando!, estava já no não-nos-deixei-cair-em-tentação e então não pôde evitar a gargalhada, começou a rir sozinha, ria alto, dizendo mas que canalhice! que cinismo! que cara-de-pau mais filha da puta!, no que o homem do banco ao lado olhou invocado:
- tá falando comigo?
o quê? oh! não, não, moço. tava falando sozinha, me desculpe. e então sossegou. suspirou. por que não tive vontade de rezar antes? cecília lembra que foi com a bíblia, o único livro que a mãe tinha em casa, que aprendeu a ler. gostava das histórias e achava melhor que assistir à televisão. isso porque, para ler, ela podia passar a noite no banheiro, sozinha, ao invés de ficar no quarto, onde os três irmãos mais velhos e a mãe se amontoavam em volta da tv - cecília não suportava o azedo do suor no quarto abafado. assim, estendia a toalha no chão do banheiro para não pegar friagem, e passava noites descobrindo as histórias de abraão, jacó, josé, davi, salomão, daniel. cecília rezava e desenvolveu uma religiosidade que lhe dava tranqüilidade e força. mas, logo veio a descoberta da biblioteca municipal e, com ela, a extinção absoluta de qualquer tipo de fé. porque passar por aventuras infanto-juvenis, contos de amor, histórias de detetive, novelas de terror, livros de guerra, mitologia grega e manuais de introdução à filosofia é muito fácil e rápido quando se é uma criança curiosa e introspectiva. ninguém percebeu o que se passava. estavam todos os familiares dormindo o cansaço diário enquanto cecília trancava-se no banheiro com os livros que, a cada dia, modificavam-na um pouco. tudo foi ocorrendo de forma tão natural que ela mesma se surpreendeu quando tomou a consciência de que não era mais uma menina, mas um bicho.
- cecilin... cê já tentou o chá de canela fervendo? - pra quê? - pra adiantar a menstruação, ué. - que ridículo, isso não tem lógica nenhuma. - diz que se o chá estiver bem quente, bem quente mesmo, desce no mesmo dia. - não acho que isso dê certo. - então deixa de frescura e compra logo o teste da farmácia! - olha mariana, se eu tivesse dinheiro, já teria feito isso. - se o problema é esse a gente vai lá e rouba, ué.
cecília está trancada no banheiro de sua infância tentando lembrar como é que fazia pra conversar com deus. antes saía tudo muito fácil e agora parece até que eles não têm assunto. ela olha no espelho. penteia o cabelo. liga o chuveiro. toma banho. enxuga-se. veste a roupa. escova os dentes. olha no espelho. ela agora é um bicho. uma víbora. deus. eu só estou tentando ser honesta. eu quero falar contigo mas perdi o jeito. me dê essa chance que preciso pois caso contrário eu terei de forçá-la por meus próprios meios. e me perdoe a falta de delicadeza. isso é o máximo que consigo por enquanto. amém. então tirou a calcinha e mijou no papelzinho que cinco minutos depois informou-a de que estava grávida. infelizmente o teste não dava o nome do pai da criança, o que era a sua segunda dúvida.
e sem nem pensar demais ela de repente estava ali, solitária, indo de ônibus buscar um remédio pra matar seu filhinho que ela nem sabia se era filho ou filha. o pagamento tinha de ser adiantado, mas ela pensou nos argumentos que usaria para convencer a mulher que vendia o comprimido a parcelar o valor em três vezes. ela era hábil com as palavras e sabia que conseguiria, sabia que daria certo - entraria lá, conversaria com a moça, tomando um café, sendo gentil e falando com desenvoltura; engoliria o remédio, descansaria o tempo necessário e depois poderia finalmente ir para casa, terminar em paz uma leitura de dostoiévski que havia interrompido.
esta hora em que o dia começa a amanhecer é boa pra existir, e fazer café. o escuro some com os pesadelos. (também pode ser a hora em que os pesadelos começam, depende do ponto de vista.) de qualquer forma, é uma hora boa pra se estar vivo. talvez os motoristas de ônibus não concordem, nem os entregadores de jornal, nem os carteiros. mas quem ainda escreve cartas?
cartas de james joyce a nora barnacle
3 de agosto de 1904
“cara nora. você vai ficar livre hoje às oito e meia? espero que sim porque tenho andado num tal remoinho de amolações que quero esquecer tudo em seus braços. venha pois se puder. em virtude dos poderes apostólicos de que estou investido por sua santidade o papa pio décimo dou-lhe por meio desta a permissão de vir sem saia, receber a bênção papal que eu terei o prazer de lhe dar.”
29 de agosto de 1904
“as dificuldades atuais de minha vida são incríveis mas eu as deprezo. (...)”
dublin, 2 de dezembro de 1909
“meu amor por ti me leva a orar ao espírito de ternura e de beleza eterna de que teus olhos são o espelho ou a te derrubar debaixo de mim sobre esta tua barriga macia e te foder por trás, como um cerdo cobrindo sua porca (...), ensinei-te a quase desmaiar quando ouves minha voz cantando ou murmurando à tua alma a paixão e a tristeza e o mistério da vida e ao mesmo tempo ensinei-te a fazer trejeitinhos indecentes com a língua e os lábios, e a excitar-me por meio de toques e ruídos obscenos, e até a fazer na minha presença o ato mais sujo e vergonhoso do corpo. (...) és minha, querida. eu te amo. (...) minha pica ainda está quente e dura e palpitante do último ataque que te fez e já se ouve um um hino em surdina que se eleva como devoção terna e apiedada por ti dos compartimentos sombrios do meu coração. nora, meu amor leal, minha puta, minha amante, tanto quanto queiras (minha amantezinha punheteira, minha putinha fodedora!) serás sempre minha linda flor agreste das sebes, minha flor azul marinho encharcada de chuva.”
dublin, 2 de dezembro de 1909
“minha adorada menininha de convento. há alguma estrela perto demais da terra porque eu continuo num acesso febril de desejo animal. (...) sei que tens uma natureza muito mais fina que a do teu extraordinário amante e embora tenhas sido tu, garota fogosa, que primeiro escreveste pra mim dizendo que estavas com saudade de ser fodida por mim ainda assim suponho que minha resposta tenha ido além dos limites da modéstia. minha doce norazinha putazinha. fiz o que me pediste, pequena sacana, e me esporrei duas vezes enquanto lia tua carta. estou feliz de ver que gostas de ser fodida no cu.”
jovens são tão deselegantes e têm gírias tão gozadas, em especial esta moda de dizer “tô bem louco” quando se está apenas bêbado ou drogado. veja bem, adoro jovens, gírias, bebidas e principalmente deselegância, mas este caso é incompreensível. quer dizer que o rapaz ou a moça passam a semana toda batendo cartão na firma e reproduzindo a maior caceteação, até que chega a sexta-feira e eles podem finalmente flutuar, depois vão dormir, acordam e voltam a cumprir suas excitantes funções sociais como motoboy, atendente de telemarketing, redator de publicidade, etc, e estavam “bem loucos” justo na hora em que estavam flutuando? não faz sentido. mas o pior não é isso. o pior é que essa loucura de uma droga qualquer é uma experiência tão levinha perto de um horácio oliveira penando mais de quinhentas páginas pra enlouquecer, que chega a ser falta de higiene usar a mesma palavra pras duas situações. mas tudo bem, tudo bem, pra quê implicar com algo tão bobo a uma hora dessas?... o papo nem era sobre loucura, apenas estava acompanhando as primeiras descobertas de stephen dedalus, um jovem tão elegante e com gírias tão bonitas
(What was after the universe?
Nothing. But was there anything round the universe to show where it stopped before the nothing place began?
It could not be a wall; but there could be a thin thin line there all round everything. It was very big to think about everything and everywhere. Only God could do that. He tried to think what a big thought that must be; but he could only think of God. God was God's name just as his name was Stephen. DIEU was the French for God and that was God's name too; and when anyone prayed to God and said DIEU then God knew at once that it was a French person that was praying. But, though there were different names for God in all the different languages in the world and God understood what all the people who prayed said in their different languages, still God remained always the same God and God's real name was God.
It made him very tired to think that way. It made him feel his head very big.)
...e depois encontrei um seminário de lacan chamado “o sintoma”, em que ele pergunta se james joyce era louco, e uma loucura puxa a outra. não sabia que lacan era tão bem-humorado. dá pra ler um trecho aqui, e até a próxima, porque todos esses assuntos são infinitos, mas a madrugada não.
"mark sandman once told me that if people really wanted to know about his musical aesthetic, they'd be better off asking him about his cooking techniques. "i've applied a lot of that to my music. for example, for years i made myself a red sauce for pasta with oregano, some thyme, some basil, black pepper, salt, some of this, some of that. i thought that's how you were supposed to make it. then one day i didn't put anything in. i just forgot. and it was the best sauce i ever made. that moment right there taught me a lot."
tal como a comida que se ingere sem se ter fome faz mal à saúde, também o estudo sem interesse confunde a memória e impede-a de assimilar aquilo que absorve